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As relações virtuais no ensino

Atualizado: Mai 8

Michelle Cartolano de Castro Ribeiro

A pandemia que estamos vivendo trouxe novos desafios e significados para todas as pessoas. Para nós, professores, não foi diferente. Os nossos desafios incluem, lógico, a tecnologia. Mas não é desse desafio que quero falar. Quero falar sobre o maior obstáculo para nós: a distância.

Ensinar não se limita a apenas transferir conhecimento, conteúdo. Essa fase nós já passamos! Atualmente, ensinar tem uma nova definição, que passa pelo coração! Não somos apenas instrumentos de aprendizagem para os alunos, somos muito mais do que isso. E é por conta disso que a distância física tem sido nosso grande obstáculo. Não poder ver os seus olhos cheios de curiosidades; não ter que administrar as perguntas, porque todos levantam as mãos ao mesmo tempo; não receber o abraço na porta da sala; não ver o sorriso com sono logo na entrada; não saber quem está triste ou chateado para podermos consolar....

Nós somos tocados todos os dias pela ternura e carinho dos alunos e isso nos enriquece como seres humanos. Temos o privilégio de nunca termos rotina no nosso trabalho, pois cada aula é diferente da outra, cada turma é especial todos os dias. Em tempos de quarentena, sentimos falta do que nos faz maiores e melhores: as relações sociais. E posso me gabar aqui porque ter contato com as crianças e jovens diariamente nos mantém jovens também. Sabemos a banda do momento, a dança mais legal, a série mais vista, o jogo mais comentado. É um frescor diário de amor e troca de experiências.

Estamos acompanhando as notícias sem sabermos o final de tudo isso, principalmente em relação às escolas, pois muito tem se falado sobre férias, aulas remotas até o segundo semestre, pais sem saber como proceder, pais angustiados para que essas aulas virtuais sejam repostas presencialmente. Tudo muito incerto, tudo muito confuso. Alguns alunos conseguirão tirar de letra as aulas on-line, outros não. Mas o que realmente importa é o nosso contato diário. Mesmo que virtual, ele continua sendo o nosso único elo entre a escola e os professores. Num momento tão incerto, a única certeza que temos é o nosso afeto e ele continua mesmo que virtualmente.

Sair da rotina de isolamento, mesmo que por alguns minutos, para rever os colegas e conversar com os professores. São momentos que enchem o coração e oxigenam novamente nossas esperanças. Ver todos bem e saber que daqui a pouco iremos nos reencontrar. O conteúdo? Ah sim, ele está sendo dado com muito cuidado, respeito e responsabilidade. Ainda conseguimos ter nossos momentos de dúvidas, onde precisamos mediar os microfones para que eles possam perguntar um de cada vez. Conseguimos trocar informações sobre o que estamos fazendo na quarentena, os filmes que assistimos e lembramos de alguma matéria e a saudade que estamos da escola.

Se eles estão conseguindo absorver todo o conteúdo? Não temos como mensurar isso, assim como não sabemos até quando ficaremos isolados ou quando conseguirão inventar uma vacina para o vírus. Porém, num momento onde a falta de respostas é a única garantia que temos, estamos conseguindo, mesmo que virtualmente, nos manter conectados, unidos, nos apoiando e olhando para cada aluno com atenção. E isso, conteúdo nenhum ensina.

Não sei se os alunos sairão da quarentena com mais conhecimentos, mas sei que eles sairão mais leves, mais preenchidos e menos sozinhos. Ganhamos tanto dos alunos ao longo da nossa vida escolar como professores, que neste momento tão delicado, só temos que retribuir com o nosso engajamento e esforço. Nada menos do que isso cabe aqui, agora.

O isolamento social nos trouxe reflexões, nos trouxe mudanças necessárias, quebras de paradigmas. Trouxe também a confirmação de que a escola é importante não apenas pelo motivo que já sabemos, mas porque é nela que aprendemos a conviver, a ter respeito pelo outro e o afeto. O que aprendemos na escola ultrapassa os livros didáticos, os currículos, os diplomas. Por isso o papel do professor é tão importante, porque só ele vai conseguir dar aquela aula, aquele conteúdo. Só ele vai saber tocar o aluno de uma maneira que vídeos e livros não fazem. E é por isso que sentimos tanto a falta da escola...professores e alunos.

O ensino à distância tem sido possível, claro. Mas ele nunca conseguirá substituir o abraço, o olho no olho e as emoções. O professor sempre será a pessoa que instiga, que faz pensar, que dá voz, que dá o ombro, e isso, tecnologia nenhuma faz! Seguimos, incansavelmente, ensinando nossos alunos durante a covid-19, mas aguardamos, ansiosamente, pelo retorno, pois voltaremos todos inspirados por fazer mais, melhor e maior. Ensinar é um ato de amor: amor pelo próximo, amor pelo que fazemos, amor pela educação, amor pelo mundo.

Paulo Freire dizia que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar um ambiente onde ele possa ser produzido”, e é esse ambiente, que nós professores, criamos tão bem.



*Deseja saber mais sobre o IPCCIC e os Seis Passos para a Cidade Humana? Acesse o nosso site: https://www.ipccic.com/. Conheça o livro "Os Seis Passos para a Cidade Humana" lançado pelo grupo em 2019: https://www.estacaoletras.com.br/product-page/os-seis-passos-para-uma-cidade-humana.

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